Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Université Laval, no Canadá, lança luz sobre os riscos significativos do consumo excessivo de frutose, especialmente aquela presente em alimentos ultraprocessados. A pesquisa, publicada na revista Molecular Metabolism, revela como o excesso desse açúcar pode desencadear alterações no intestino, precedendo o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e doenças hepáticas.
A frutose e sua presença nos alimentos ultraprocessados
A frutose, um tipo de açúcar encontrado naturalmente nas frutas, é frequentemente adicionada a alimentos industrializados, como o xarope de milho rico em frutose, sendo comum em produtos como bisnaguinhas e pão de forma. Essa adição ocorre muitas vezes sob a alegação de ser uma opção mais saudável, porém, o estudo demonstra que o cenário é bem mais complexo.
Alimentos ultraprocessados, caracterizados por seu baixo teor de fibras e alta concentração de açúcares adicionados, representam uma das principais fontes de consumo excessivo de frutose na dieta moderna. A pesquisa destaca uma vasta gama de produtos onde a frutose se encontra em abundância, incluindo:
- Refrigerantes e sucos industrializados, mesmo aqueles rotulados como 100% fruta.
- Cereais matinais, granolas adoçadas e barras de cereais.
- Molhos industrializados como ketchup, barbecue e molhos para salada.
- Biscoitos recheados e doces industrializados.
- Pães e bolos industrializados, como o pão de forma comum e bisnaguinhas.
- Chás e bebidas esportivas adoçadas, incluindo chás prontos e isotônicos.
- Iogurtes adoçados e sobremesas lácteas.
- Geleias e doces de fruta industrializados.
- Até mesmo hambúrgueres e pães de redes fast-food podem conter quantidades elevadas de frutose.
Como o excesso de frutose afeta o organismo
A pesquisa demonstrou que o consumo exagerado de frutose altera a maneira como o intestino reage à glicose, aumentando a absorção desse açúcar e comprometendo o controle da glicemia. Esses efeitos foram observados em estudos com camundongos, nos quais uma dieta com 8,5% da energia proveniente de frutose levou a um aumento na capacidade do intestino de absorver glicose em apenas três dias. Essa proporção é considerada elevada, mas ainda próxima do consumo humano médio.
Os pesquisadores constataram que essa absorção intestinal alterada precede a intolerância à glicose e o acúmulo de gordura no fígado, dois fatores cruciais ligados ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 e da doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), anteriormente conhecida como doença hepática gordurosa não alcoólica. Segundo os autores do estudo, a modificação na resposta intestinal à glicose é o gatilho principal para esses problemas.
O papel do GLP-2 no aumento da absorção de glicose
A explicação para esse fenômeno pode residir na ação do peptídeo semelhante ao glucagon 2 (GLP-2), um hormônio produzido pelas células do intestino. O estudo revelou que o consumo excessivo de frutose eleva os níveis circulantes de GLP-2, uma substância que estimula o crescimento da superfície intestinal e, consequentemente, aumenta a absorção de nutrientes, incluindo a glicose.

Ao bloquear o receptor desse hormônio (Glp2r) em camundongos com uma droga, os pesquisadores conseguiram impedir o aumento da absorção de glicose, evitando tanto a intolerância à glicose quanto o acúmulo de gordura no fígado. No entanto, os autores ressaltam que essa estratégia de bloqueio do Glp2r não é facilmente aplicável em humanos, pois esse mesmo receptor desempenha um papel importante na proteção da barreira intestinal contra infecções e inflamações. Essa complexidade reforça a necessidade de cautela ao considerar intervenções terapêuticas direcionadas a essa via.
Frutas versus frutose adicionada: uma distinção crucial
É importante destacar que os resultados do estudo se referem ao consumo de frutose adicionada a alimentos ultraprocessados, e não à frutose naturalmente presente nas frutas. As frutas in natura são ricas em fibras, que desempenham um papel fundamental na moderação da absorção de glicose e no aumento da saciedade. Além disso, as frutas contêm uma variedade de nutrientes benéficos para a saúde intestinal e hepática.
O professor de fisiologia Fernando Forato Anhê, orientador do estudo, explica que o problema do consumo exagerado de frutose reside no açúcar adicionado pela indústria a alimentos ultraprocessados e bebidas, bem como no açúcar de mesa, que também é rico em frutose. Ele aponta que, ao consumirmos frutas, a presença de fibras torna a absorção dos açúcares mais lenta e gradual, além de contribuir para a saciedade. Em contrapartida, em preparações como sucos (mesmo os naturais), esses fatores limitantes são perdidos, o que pode levar ao consumo excessivo de frutose.
Implicações para a saúde pública e prevenção
Os achados da pesquisa reforçam a importância de limitar o consumo de alimentos ultraprocessados e priorizar uma dieta rica em alimentos in natura, conforme recomendado pelo Guia Alimentar para a População Brasileira. A pobreza nutricional dos ultraprocessados, com seu baixo teor de fibras e altos níveis de açúcares adicionados, sobrecarrega o organismo e contribui para o desenvolvimento de diversas doenças metabólicas.
O pesquisador Paulo H. Evangelista-Silva, um dos autores do estudo, alerta para o fato de que as informações nutricionais no Brasil nem sempre detalham a adição de açúcar derivado das frutas. Isso significa que mesmo produtos aparentemente saudáveis podem conter grandes quantidades desse açúcar sem que o consumidor se dê conta. A frutose pode aparecer na lista de ingredientes sob diferentes nomes, como xarope de milho rico em frutose, glicose-frutose, açúcar invertido, maltodextrina e até mesmo mel e melaço. Portanto, ler os rótulos com atenção é essencial para a saúde.
A próxima etapa da pesquisa, com apoio do Canadian Institutes of Health Research (CIHR), buscará investigar como o microbioma intestinal pode ser manipulado para reduzir os efeitos nocivos do excesso de frutose. Essa linha de investigação poderá abrir novas avenidas para estratégias de prevenção e tratamento de doenças metabólicas associadas ao consumo elevado desse açúcar.
Um dos resultados promissores do estudo é a identificação do aumento da absorção de glicose pelo intestino como um evento precoce, que ocorre antes mesmo da intolerância à glicose. O professor Fernando Forato Anhê sugere que esse mecanismo pode ser utilizado como um biomarcador precoce para identificar indivíduos com maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 e doenças hepáticas. Ele destaca que o teste de absorção intestinal de glicose é um procedimento barato, seguro e já utilizado em humanos, bastando aplicá-lo em um novo contexto para avaliar os efeitos do consumo excessivo de frutose.
Outros riscos associados ao consumo excessivo de açúcar
Embora o estudo se concentre nos efeitos da frutose, as fontes também alertam para os malefícios gerais do consumo excessivo de açúcar, que está diretamente ligado a sérios problemas de saúde. Comer muito doce e carboidratos pode aumentar o risco de desenvolver diabetes, câncer, obesidade, entre outros. O Brasil é um dos países que mais consome açúcar no mundo, com uma ingestão diária que muitas vezes ultrapassa as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Especialistas apontam que o açúcar possui propriedades viciantes e pode desencadear uma série de reações negativas no corpo, incluindo alergias e a desativação do sistema imunológico, tornando o indivíduo mais propenso a infecções. O excesso de açúcar pode levar a picos e quedas bruscas nos níveis de glicemia, gerando um ciclo compulsório de fome e aumentando o desejo por doces. A longo prazo, o consumo exagerado de açúcar pode contribuir para o envelhecimento precoce, problemas de visão, cáries, doenças autoimunes e problemas capilares. Além disso, está associado a problemas cardiovasculares, ansiedade, estresse, baixa energia e problemas intestinais.
Estratégias para evitar o consumo excessivo de frutose
Diante dos riscos associados ao consumo excessivo de frutose, especialmente aquela adicionada aos alimentos ultraprocessados, algumas estratégias podem ser adotadas para proteger a saúde metabólica:
- Priorizar o consumo de alimentos in natura e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e proteínas magras.
- Ler atentamente os rótulos dos alimentos, verificando a lista de ingredientes e a quantidade de açúcares adicionados, incluindo os diferentes nomes sob os quais a frutose pode se apresentar.
- Reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, sucos industrializados, biscoitos, bolos prontos e molhos industrializados.
- Moderar o consumo de açúcar de mesa e outras fontes concentradas de frutose, como o xarope de milho.
- Ao consumir frutas, preferir a forma in natura em vez de sucos, para aproveitar os benefícios das fibras.
- Buscar alternativas mais saudáveis para adoçar alimentos e bebidas, como especiarias (canela, cravo) ou adoçantes naturais em moderação.
Adotar essas medidas pode contribuir significativamente para a redução do consumo excessivo de frutose e, consequentemente, para a prevenção de doenças metabólicas como o diabetes tipo 2 e a doença hepática gordurosa. A conscientização sobre as fontes ocultas de frutose nos alimentos ultraprocessados e a priorização de uma alimentação baseada em alimentos frescos e naturais são passos fundamentais para a promoção da saúde a longo prazo.
Fontes: CNN Brasil; Secretaria de Saúde de São Paulo; Metrópoles

