A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou uma mudança significativa nas regras para a venda de medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras”, como Ozempic, Saxenda e Wegovy. Em decisão unânime tomada durante reunião da diretoria colegiada, a agência determinou que a retenção de receita médica será obrigatória no ato da compra desses produtos nas farmácias. A medida visa aumentar o controle sobre o uso desses medicamentos e proteger a saúde coletiva diante do “consumo irracional” desses emagrecedores.
Anvisa endurece regras para venda de canetas emagrecedoras: detalhes da medida
A decisão da Anvisa estabelece que, a partir da entrada em vigor da norma, as farmácias não apenas exigirão a apresentação da receita médica, como já ocorria, mas também deverão retê-la. Essa retenção do receituário é um ponto crucial da nova regra, visando um controle mais rigoroso da dispensação desses medicamentos.
Para que as receitas sejam aceitas nas drogarias, elas deverão conter duas vias e ter validade de 90 dias a partir da data de emissão. Além disso, os estabelecimentos farmacêuticos terão a responsabilidade de registrar as receitas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC). Esse registro permitirá um monitoramento mais eficaz da prescrição e venda desses medicamentos em todo o país.
A medida da Anvisa entrará em vigor 60 dias após a sua publicação no Diário Oficial da União (DOU), o que deve ocorrer nos próximos dias. Esse prazo de 60 dias serve para que farmácias e outros atores da cadeia de distribuição se adaptem às novas exigências.
A lista de medicamentos registrados pela Anvisa que se enquadram nessa nova regra inclui diversos agonistas do receptor GLP-1, como Soliqua, Victoza, Trulicity, Saxenda, Xultophy, Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Mounjaro, Povitztra, Extensior, Lirux e Olire. É importante notar que a medida abrange uma gama de produtos utilizados tanto para o tratamento de diabetes tipo 2 quanto para o controle de peso.
O uso indiscriminado e seus riscos: a motivação da Anvisa
A principal motivação por trás da decisão da Anvisa é o crescente uso indiscriminado dessas canetas emagrecedoras, especialmente por pessoas que buscam a perda de peso sem acompanhamento médico. A agência reguladora constatou um número elevado de eventos adversos relacionados a esse uso inadequado.
De acordo com a Anvisa, os efeitos adversos ocorrem principalmente em indivíduos que utilizam as canetas com finalidade estética, sem a devida supervisão de um profissional de saúde. Especialistas alertam que o uso de emagrecedores sem acompanhamento médico e com dosagem inadequada pode desencadear uma série de problemas de saúde, como náuseas, distensão abdominal, constipação ou diarreia. Além disso, o uso incorreto desses medicamentos pode agravar transtornos psicológicos e alimentares preexistentes.
Dados da própria Anvisa revelam a dimensão do problema: 32% das notificações de casos adversos no Brasil envolvem o uso desses medicamentos de forma não indicada em bula. Esse índice é alarmantemente superior à média global, que se situa em torno de 10%. Esse dado reforça a urgência da medida adotada pela agência para proteger a saúde da população.
Apoio de entidades médicas à retenção de receita
A decisão da Anvisa de tornar obrigatória a retenção de receita para a venda das canetas emagrecedoras encontra respaldo em importantes entidades da área da saúde. No final do ano passado, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) divulgaram uma carta aberta defendendo essa medida.
Para essas entidades, o uso indiscriminado dos agonistas de GLP-1 gera preocupações significativas em relação à saúde da população e também ao acesso dos pacientes que realmente necessitam desses medicamentos para o tratamento de condições como o diabetes tipo 2. A retenção da receita é vista como um passo crucial para garantir que esses medicamentos sejam utilizados de forma responsável e sob orientação médica.
Como fica a venda nas farmácias: novas exigências para receitas
Com a nova regra, o processo de compra das canetas emagrecedoras nas farmácias sofrerá algumas alterações importantes. O consumidor deverá apresentar uma receita médica válida, com duas vias e emitida há no máximo 90 dias. A farmácia, por sua vez, reterá uma das vias da receita no momento da venda e registrará as informações no SNGPC.

Essa exigência de retenção da receita representa um controle mais efetivo em comparação com a situação anterior, na qual apenas a apresentação do documento era necessária. Ao reter a receita, as farmácias impedem que o mesmo receituário seja utilizado para múltiplas compras, dificultando o uso contínuo e sem supervisão médica desses medicamentos.
Impacto e próximos passos: vigência da nova regra
A decisão da Anvisa representa um marco na regulamentação da venda de medicamentos utilizados para emagrecimento no Brasil. A obrigatoriedade da retenção de receita busca alinhar a dispensação desses produtos às normas de controle de medicamentos que podem apresentar riscos à saúde se utilizados de forma inadequada.
A medida entrará em vigor 60 dias após a publicação no Diário Oficial da União. A expectativa é que, com a implementação da retenção de receita e o registro no SNGPC, haja uma redução significativa no uso indiscriminado dessas canetas e, consequentemente, na ocorrência de eventos adversos.
A Anvisa esclareceu que a nova medida não interfere no direito do médico de prescrever medicamentos para finalidades diferentes das aprovadas em bula, prática conhecida como uso “off-label”. Essa prática é comum na medicina quando o médico, baseado em seu conhecimento e na avaliação do paciente, considera que os benefícios do tratamento superam os riscos, mesmo que a indicação não esteja explicitamente aprovada para aquele medicamento.
No entanto, os dados da Anvisa que apontam para o alto índice de eventos adversos relacionados ao uso não indicado em bula desses medicamentos sugerem que essa prática, embora permitida, requer ainda mais atenção e acompanhamento médico rigoroso. A retenção da receita pode indiretamente contribuir para um uso “off-label” mais consciente, já que a necessidade de uma nova prescrição a cada compra reforça a importância do acompanhamento médico.
Brasil alerta: alto índice de eventos adversos por uso inadequado
O fato de o Brasil apresentar um índice de notificações de eventos adversos relacionados ao uso não indicado dessas medicações mais de três vezes superior à média global demonstra a particularidade da situação no país e a urgência de medidas como a retenção de receita. Esse dado pode refletir diversos fatores, como a busca por soluções rápidas para perda de peso, a influência de informações não verificadas e a facilidade de acesso aos medicamentos sem a devida orientação médica.
A nova regulamentação da Anvisa busca reverter esse cenário, promovendo um uso mais seguro e responsável desses medicamentos e alinhando o Brasil a padrões internacionais de controle.
A decisão da Anvisa de tornar obrigatória a retenção de receita para a venda de canetas emagrecedoras como Ozempic representa um avanço importante na proteção da saúde pública. Ao aumentar o controle sobre a dispensação desses medicamentos e combater o uso indiscriminado, a agência busca reduzir a ocorrência de eventos adversos e garantir que esses produtos sejam utilizados por pacientes que realmente necessitam deles, sob a supervisão de um profissional de saúde. A medida, apoiada por entidades médicas, entrará em vigor em breve e exigirá a atenção de farmácias, médicos e pacientes para garantir sua efetividade e promover um uso mais consciente e seguro desses medicamentos.
Fontes: Agência Brasil; CNN Brasil

