Um avanço histórico na medicina reprodutiva tem dado o que muitos pais sonham: a chance de ter filhos livres de doenças genéticas graves. Pela primeira vez, bebês nasceram no Reino Unido a partir de uma técnica inovadora que usa material genético de três pessoas. O objetivo? Evitar a transmissão de doenças hereditárias severas, que até hoje não tinham cura.
Essa conquista foi liderada por cientistas da Universidade de Newcastle e representa uma nova esperança para casais que, até então, corriam um risco muito alto de passar essas condições para os filhos. Até agora, oito bebês — quatro meninos e quatro meninas, incluindo um par de gêmeos — nasceram com saúde. E ainda há mais uma gravidez em andamento.
Por que essa técnica é tão importante?
Algumas doenças genéticas são causadas por alterações no DNA mitocondrial, que é transmitido exclusivamente pela mãe. As mitocôndrias são como usinas de energia das células, e quando elas estão com defeito, órgãos que precisam de muita energia — como o cérebro, o coração e os músculos — sofrem consequências graves.
Essas doenças podem causar sérias limitações ou até mesmo levar à morte de bebês poucos dias após o nascimento. Estima-se que 1 em cada 5.000 a 6.000 crianças nasça com essas mutações. Infelizmente, ainda não existe cura para essas condições.

Por isso, essa nova técnica traz um sopro de esperança. Para muitas famílias, ela representa a possibilidade de interromper um ciclo doloroso. Uma mãe que teve seu bebê com a ajuda do novo tratamento resumiu bem: “Essa técnica nos deu esperança — e depois, nos deu nosso bebê”.
Como funciona o procedimento com três DNAs
A técnica se chama transferência pronuclear, também conhecida como tratamento de doação mitocondrial (MDT). Funciona assim:
- O óvulo da mãe e o óvulo de uma doadora são fertilizados com o esperma do pai.
- Em seguida, os cientistas retiram o DNA nuclear do óvulo da mãe (a parte que determina características como cor dos olhos e altura) e o transferem para o óvulo da doadora, que já teve seu próprio DNA removido, mas mantém mitocôndrias saudáveis.
- O embrião resultante é implantado no útero da mãe.
Assim, a criança herda mais de 99,8% do DNA dos pais biológicos. Apenas uma pequena parte — cerca de 0,1%, equivalente a 37 genes — vem da mulher doadora, responsável apenas por fornecer mitocôndrias funcionais.
Os resultados até agora são promissores
As primeiras crianças nascidas por essa técnica têm se desenvolvido bem, dentro dos marcos esperados para a idade. Em exames, as mutações mitocondriais apareceram em níveis muito baixos — muitas vezes indetectáveis — e bem abaixo do limite para causar problemas de saúde.
Algumas das crianças enfrentaram pequenos desafios no início da vida, como um caso de epilepsia que desapareceu sozinho e um bebê com ritmo cardíaco irregular, já controlado. Porém, nenhum desses casos foi ligado diretamente ao procedimento.
O acompanhamento ao longo dos anos será essencial, mas até agora, os especialistas estão confiantes de que essa técnica representa um avanço significativo.
Um passo científico e legal corajoso
O Reino Unido é o primeiro país a aprovar leis que permitem o uso clínico dessa técnica, após votação no Parlamento em 2015. Essa regulamentação foi essencial para transformar anos de pesquisa em um tratamento real, acessível pelo sistema público de saúde britânico.
Como o DNA mitocondrial da doadora pode ser passado adiante pelas filhas nascidas com esse método, surgiram debates éticos sobre a modificação genética hereditária. Mas, para muitas famílias, o benefício de ter filhos saudáveis supera essas preocupações.
Um futuro com menos sofrimento hereditário
Ver uma criança saudável nascer, após o medo de repetir o passado, é um alívio impossível de descrever para muitas famílias. A possibilidade de evitar que doenças incuráveis sejam transmitidas está mudando vidas — e inspirando pais, cientistas e profissionais da saúde ao redor do mundo.
Esse avanço não só representa uma conquista científica, mas também humana. Ele mostra como a ciência, aliada à empatia e ao progresso ético, pode dar às pessoas algo inestimável: a chance de viver e de amar com mais tranquilidade e esperança.
Fontes: CNN Brasil; Terra; Veja Saúde