A notícia do falecimento da cantora Preta Gil, aos 50 anos, em 20 de julho, após descobrir um câncer colorretal aos 48, trouxe grande visibilidade a uma preocupação crescente na área da saúde. Trata-se de uma condição que, nos últimos anos, tem mostrado um aumento notável, especialmente em indivíduos com menos de cinquenta anos. No Brasil, essa enfermidade já figura como o terceiro tipo de câncer com maior letalidade e o segundo em ocorrência tanto em mulheres, superado apenas por tumores mamários, quanto em homens, depois do câncer de próstata, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
A situação é tão séria que o Inca projeta um acréscimo de 10% na taxa de mortes prematuras por câncer colorretal entre pessoas de 30 a 69 anos até 2030. Essa previsão se mostra ainda mais alarmante em algumas regiões do país, como o Norte, que pode ter um aumento de 52% entre os homens, e o Nordeste, que lidera com 38% para as mulheres. Apesar de a incidência geral da doença ter diminuído desde o final da década de 1980, a proporção de diagnósticos em pessoas com menos de 55 anos praticamente dobrou, passando de 11% em 1995 para 20% em 2019, o que significa que, antes, um a cada dez pacientes era jovem, e agora, um a cada cinco se encaixa nesse perfil. Além disso, a taxa de mortalidade em indivíduos com menos de 50 anos tem aumentado 1% anualmente desde 2005. O Brasil, segundo estimativas do Inca, espera cerca de 45.630 novos casos anualmente entre 2023 e 2025.
Mas afinal, o que está por trás desse avanço? Cientistas e médicos estão empenhados em desvendar as razões para essa tendência preocupante.
Entendendo o câncer colorretal: o que ele é?
Popularmente conhecido como “câncer de intestino”, o câncer colorretal abrange os tumores que se originam no cólon (parte do intestino grosso) e no reto (a porção final do intestino grosso). Essa condição se desenvolve principalmente a partir de alterações genéticas em lesões benignas, como pólipos (crescimentos) que se formam nas paredes do órgão. A denominação específica, câncer de cólon ou reto, depende da localização exata dos tumores.
Por que o aumento entre os mais jovens? Hábitos e fatores em jogo
A pergunta que não quer calar é: por que tantos jovens estão sendo afetados? Acredita-se que o estilo de vida contemporâneo tenha um papel fundamental nesse cenário. Estudos indicam que mudanças nos padrões alimentares e o sedentarismo contribuem significativamente para a ocorrência desse tipo de tumor. A redução da incidência observada em adultos mais velhos nos anos 80, por exemplo, foi atribuída a um estilo de vida mais saudável e maior adesão à prevenção.

No entanto, as últimas décadas viram um crescimento no consumo de alimentos industrializados e processados. A presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Anelisa Coutinho, ressalta a importância de manter um peso corporal adequado, reduzir a ingestão de carnes processadas e vermelhas, e evitar o consumo de bebidas alcoólicas como medidas preventivas.
Além disso, os principais fatores de risco associados à doença incluem:
- Comportamento: sedentarismo, excesso de peso corporal (obesidade), ingestão regular de álcool e tabaco, e baixa ingestão de fibras, frutas, vegetais e carnes magras.
- Dieta: maior consumo de alimentos ultraprocessados, carne vermelha e bebidas açucaradas, e menor ingestão de fibras, que são encontradas em frutas, verduras, legumes e grãos integrais.
- Microbiota intestinal: pesquisas recentes sugerem que alterações na flora intestinal, por vezes iniciadas na infância, podem ter um papel crucial. Essas alterações podem estar relacionadas ao uso excessivo de antibióticos e à presença de microplásticos ingeridos através de alimentos e água, que influenciam o equilíbrio das bactérias no intestino. Um estudo, em abril, na revista Nature, ligou o aumento de diagnósticos a uma toxina bacteriana intestinal chamada colibactina, que deixaria um “registro histórico” no genoma.
- Fatores genéticos ou hereditários: condições como doença inflamatória intestinal crônica (retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn), histórico pessoal ou familiar de adenoma ou câncer colorretal, e certas síndromes hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC), também aumentam o risco.
- Fatores ocupacionais: exposição a radiações, como raios X e gama.
Identificando os sinais: os sintomas do câncer de intestino
O câncer de intestino é frequentemente chamado de “doença silenciosa” porque seus sintomas iniciais podem ser sutis e facilmente confundidos com outras condições. No entanto, é vital estar atento a sinais como:
- Alterações no hábito intestinal: diarreia, constipação ou estreitamento das fezes que persistem por mais de alguns dias.
- Sensação de evacuação incompleta: a impressão de que precisa evacuar, mas não consegue, mesmo após ir ao banheiro.
- Sangramento retal: presença de sangue vermelho vivo ou escuro, com ou sem muco, nas fezes.
- Dores e desconfortos abdominais: cólicas, dor abdominal ou inchaço após as refeições.
- Sintomas inespecíficos: fraqueza, fadiga, perda de peso sem explicação e anemia crônica.
Qualquer fissura anal ou mudança no formato habitual das fezes também deve ser motivo para procurar um profissional de saúde.
O caminho para a cura: diagnóstico e tratamento
Uma das melhores notícias é que o câncer de cólon e reto possui um alto potencial de prevenção e detecção precoce. Identificar a doença antes que os sintomas se manifestem facilita enormemente o tratamento. Para o sucesso terapêutico, o diagnóstico em estágios iniciais é crucial, embora os sintomas possam ser inespecíficos, aumentando o risco de complicações graves se a detecção for tardia.
Os exames de detecção incluem a pesquisa de sangue oculto nas fezes e procedimentos endoscópicos como a colonoscopia e a retossigmoidoscopia. A colonoscopia, apesar de ser um exame invasivo, é considerada essencial e pode ser um passo vital para salvar vidas. Recentemente, entidades médicas têm recomendado a colonoscopia a partir dos 40 anos para pessoas com risco médio, uma década antes da recomendação anterior de 50 anos. Para aqueles com sintomas suspeitos ou histórico familiar, o exame pode ser indicado ainda mais cedo.
Uma vez que a doença é diagnosticada, o tratamento pode envolver diversas abordagens, como quimioterapia, radioterapia e, dependendo do estágio, cirurgia para remover a parte afetada do intestino e gânglios linfáticos. Em casos de metástase (quando o tumor se espalha para outros órgãos), as chances de cura podem ser reduzidas.
Protegendo-se: estratégias de prevenção do câncer colorretal
A boa notícia é que é possível reduzir as chances de desenvolver câncer colorretal por meio de ajustes no estilo de vida. Pesquisas globais confirmam que hábitos alimentares e de atividades físicas têm uma grande influência nesse risco.
Entre as medidas de prevenção mais indicadas, destacam-se:
- Alimentação Saudável: Adotar uma dieta rica em vegetais, grãos e frutas. Reduzir o consumo de alimentos processados, carnes processadas (como salsicha, linguiça, presunto, bacon) e limitar a ingestão de carnes vermelhas a no máximo 500 gramas cozidas por semana.
- Atividade Física Regular: Praticar exercícios físicos regularmente. O Ministério da Saúde recomenda pelo menos 150 minutos de atividade física por semana.
- Controle do Peso: Manter um peso corporal adequado.
- Evitar Vícios: Abster-se de cigarro e bebidas alcoólicas.
- Beber Água: Ingerir pelo menos dois litros de água por dia.
- Exames Preventivos: Realizar exames preventivos, como a colonoscopia e a pesquisa de sangue oculto nas fezes, conforme orientação médica. É crucial conversar com um médico para saber a necessidade de uma avaliação personalizada.
Em resumo, o câncer colorretal, embora silencioso e em ascensão entre os jovens, não é uma sentença. Ele é como uma jardim que precisa de cuidado constante. Se você planta boas sementes (hábitos saudáveis), retira as ervas daninhas (fatores de risco) e monitora de perto o crescimento (exames preventivos), as chances de ter um jardim bonito e saudável, ou seja, um intestino saudável, aumentam significativamente, permitindo que você desfrute da vida com mais tranquilidade e bem-estar.
Fontes: Veja Saúde; Metrópoles; Gazeta; CNN Brasil